Arquivo de Vozes em Movimento - Organização Popular Terra Liberta https://terraliberta.org/category/vozes-em-movimento/ Organizando comunidades na luta por terra e liberdade Mon, 22 Dec 2025 01:29:23 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0.3 https://terraliberta.org/wp-content/uploads/2022/08/cropped-mini-mini-logo-1-32x32.png Arquivo de Vozes em Movimento - Organização Popular Terra Liberta https://terraliberta.org/category/vozes-em-movimento/ 32 32 227164137 Não é invasão, é uma questão de necessidade https://terraliberta.org/2025/12/22/nao-e-invasao-e-uma-questao-de-necessidade/ https://terraliberta.org/2025/12/22/nao-e-invasao-e-uma-questao-de-necessidade/#respond Mon, 22 Dec 2025 01:29:21 +0000 https://terraliberta.org/?p=744 Por Zé Ripardo Junho de 2023 A luta por terra em Massapê (CE) é acirrada! Sempre se tem a presença policial e do sistema judiciário contra nós. A nossa causa é justa, não é uma invasão, é uma questão de necessidade. E a necessidade obriga a tomamos decisões nem sempre adequadas para sobreviver. Em 1996, ... Ler mais

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Por Zé Ripardo

Junho de 2023

A luta por terra em Massapê (CE) é acirrada! Sempre se tem a presença policial e do sistema judiciário contra nós. A nossa causa é justa, não é uma invasão, é uma questão de necessidade. E a necessidade obriga a tomamos decisões nem sempre adequadas para sobreviver.

Em 1996, eu fiquei sem casa. Fiquei desesperado, pensando como iria morar de aluguel sem estar trabalhando, sem dinheiro, sem nada. Era apenas eu e mais três filhos pequenos.

Depois de passar de casa em casa de parentes, Deus me inspirou a ocupar um terreno na frente da casa de um dos meus filhos, e construir um rancho, porque naquela situação em que eu estava, levando meus filhos pequenos de um lado para o outro, não poderia continuar.

Sabia que não seria fácil, pois a terra tinha dono, mas não desisti. Às 5h, peguei a foice, a enxada e um picarete, comecei a limpar o espaço tomado pelo mato. Não aconteceu nada, nenhuma reclamação ou aparição de alguém. Mas, no segundo dia, continuei a limpar e a polícia apareceu atrás de mim, informando que o delegado estava me chamando. Tentaram me levar na viatura, mas relutei e fui de bicicleta, afinal, não era bandido para ir na viatura.

Fui informado de que não podia levantar uma casa naquele terreno, pois não tinha documento de propriedade. Expliquei a urgência de ter um teto para mim e meus filhos, mas recebi apenas o conselho de não mexer mais lá. Saí da delegacia, e não fui para o terreno. Porém, às 4h da manhã do dia seguinte, lá estava eu, continuando a limpar. Às 6h, a polícia apareceu novamente e eu disse a eles que era uma questão de necessidade.

Fui algumas vezes conversar com o delegado sobre o assunto, mas a partir daquele momento não era mais com ele que eu iria falar, mas com a promotoria. A situação foi encaminhada para a justiça, e fui conversar com o promotor, somente eu e Deus. Me questionaram sobre o que eu estava fazendo lá, expliquei toda a situação em que me encontrava, mas mais uma vez não ligaram para isso, apenas para o documento do terreno. Eu retruquei, afirmando que a terra era do governo, que a construção estava em cima da “banqueta da linha”, no meio de duas terras.

Retrato a carvão (IA) de Zé Ripardo na Ocupação Nestor Makhno em Massapê (CE), 2023.

Mais dois companheiros se juntaram a mim na mesma situação, e voltamos a construir as casas. Quando estava fazendo a sustentação do teto, olhei para trás e vi a polícia de uma ponta a outra no horizonte. O dono do terreno convocou a polícia para nos enfrentar, mas não recuamos.

Hoje em dia, ainda moro no local. Cresceu e mais pessoas chegaram. Alguns construíram e venderam as casas, outros alugaram. Isso me entristece, porque, depois de tanto sacrifício, tanta luta, alguém vender a casa para uma pessoa que não participou do movimento pela terra e ainda vendê-la a um preço caro para o nosso povo pobre, não era algo bom.

Estamos prestando mais atenção, com a ajuda da diocese, à condição de quem está entrando agora no espaço. Quem realmente está conosco, pois a luta é contínua, precisamos ter casas para a necessidade do nosso povo, não para vender ou alugar, afinal, isso enfraquece a luta daqueles que continuam lutando.

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Viver é uma luta https://terraliberta.org/2025/08/04/viver-e-uma-luta/ https://terraliberta.org/2025/08/04/viver-e-uma-luta/#comments Mon, 04 Aug 2025 01:14:02 +0000 https://terraliberta.org/?p=733 Por Fran, militante da Terra Liberta. Março de 2022. O ser humano não entende que a nossa vida, nosso dia a dia, é uma luta. Nós vivemos 24h por dia em uma luta. Independentemente do que for, é uma luta. Viver é uma luta. E as pessoas acham que “ah, acordei, vou trabalhar… Cheguei, tomei ... Ler mais

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Por Fran, militante da Terra Liberta.
Março de 2022.

O ser humano não entende que a nossa vida, nosso dia a dia, é uma luta. Nós vivemos 24h por dia em uma luta. Independentemente do que for, é uma luta. Viver é uma luta. E as pessoas acham que “ah, acordei, vou trabalhar… Cheguei, tomei banho, jantei. Fui dormir”. Não é assim. Se pararem pra analisar, tudo é uma luta. Tudo gira em torno de uma grande luta, e vence o mais forte.

As pessoas acham que “ah, porque eu sou uma pessoa pobre, não tenho estudo, que vou aceitar tudo das pessoas que têm mais condições do que eu”. Isso não é certo. A gente tem que se impor pra conseguir vencer. Olha só, hoje a frase que eu escutei foi: “Fran, tu é louca de dizer pra tua patroa que tu vai faltar pra ir pro trancaço.” Qual é o problema? E falei numa boa, disse assim: “no dia 18 do outro mês, eu vou faltar. Estou avisando com mais de um mês de antecedência, porque o motivo que vou faltar não vai ser doença, e também não vai ser pelos meus filhos. Quando tiver bem pertinho, vou lhe dizer o porquê vou faltar.”

De dentro da fábrica, tem gente que trabalha lá desde os oito anos. Tem gente que trabalha há 20 anos. E tem um rapaz lá que, daqui acola, vai contar entre idas e vindas, ele já tá há 25 anos. De toda a fábrica, eu sou a única que mexe no WhatsApp e faz uma ligação no telefone. Tipo, eu pego e vou lá no YouTube, coloco o vídeo, e eu fico escutando a música e assistindo o vídeo. Se ela se toca ou não se toca, não é problema meu. Porque todo mundo faz isso. A diferença é que fazem escondido. Mas todo mundo lá faz isso.

E tipo assim, eu gosto de demonstrar quem eu sou. Eu não gosto de enganar ninguém, porque eu não gosto de ser enganada. As meninas têm um medo enorme de perguntar qualquer coisa. Meninas que trabalham há 3, 4, 5 anos têm um maior medo de perguntar alguma coisa. E eu não sei o porquê, eu sempre enfrentei.

E depois que teve aquela manifestação na antiga empresa que eu trabalhava, eu fiquei com mais vontade ainda. Chegou a um ponto de eu dizer assim: “quer saber, por que eu vou ter medo do patrão? Ele não é meu pai, não é minha mãe, ele não pode me bater. No máximo que pode acontecer é ele me botar pra fora.” Eu sei, eu tenho a minha plena consciência que sou uma boa funcionária, que eu não falto por besteira, que não chego atrasada. Mas eu tenho prioridades na minha vida. E tipo assim, o trabalho não tá em primeiro lugar.

Inclusive, teve uma vez lá que me perguntaram qual a primeira coisa que estava em primeiro lugar na minha vida, e eu falei que era os meus filhos, a minha família. Aí algumas pessoas olharam torto e disseram: “ai, o meu é meu emprego.” Que se lasque o emprego! Se um filho meu adoece e não tem ninguém que o leve pro hospital, eu falto o emprego e levo ele pro hospital. Pronto e acabou.

As pessoas se prendem demais. As pessoas se prendem muito. Tipo assim, como se as pessoas, desde bebê, desde criança, adolescente, fossem presas nessa sociedade que ensina assim. É o que eu vejo. E talvez eu não esteja falando com as palavras certas, tô falando com as minhas próprias palavras. Mas o que eu vejo é que, desde criança, você é ensinado a uma pessoa falar e você obedecer. Desde criança: “Ah, porque fulano é branco e fulano é negro. Tem coisa que o negro não vai poder fazer, só o branco vai poder fazer… Ah, porque o pobre não tem dinheiro, e só o rico vai fazer”. Não existe isso. O pessoal não entende que o que ganha é a maioria. E se você for colocar na lista, a maioria é preto e pobre. Tá entendendo? A maioria.

E as pessoas não conseguem entender. Todo bairro tem um pessoal que se envolve com o crime. E aí fica aquela matança entre as comunidades. Essas pessoas estão lutando contra as pessoas erradas. É uma briga entre uma mesma classe social. Isso tá errado. Imagine se esse pessoal se reunisse, juntasse forças e fizesse uma aliança pra lutar contra quem faz eles morrerem? Tudo que não presta no Brasil alguém coloca pra dentro! Já parou pra pensar nisso? Já pensou em quantos milhões os poderosos roubam pra deixar essas porcarias entrarem no Brasil?

É como se estivessem no mar, e os peixinhos beta continuam com o foco errado. Lá em cima, as baleias e os tubarões, só eles têm vantagens, porque são mais fortes, porque eles comem mais, são mais agressivos. Enfim, todo o poder é deles por causa dos peixes serem pequenos, serem frágeis. É mais ou menos isso. Essa é a minha reflexão. Tem que mudar o foco, se reunir, parar de matar entre si e focar no poder dos que deixam entrar armas, altos tipos de drogas perigosíssimas que acabam com o povo pobre. Alguém deixa entrar. E a luta é essa, não na mesma classe social.

Porque isso que a gente sofre é mais ou menos assim: nós fomos libertados da escravidão, mas nós ainda continuamos no chicote. Qual o tipo de chicote? Tipo no trabalho, em questão de empresa: o patrão grita e o funcionário tem que ficar calado. Tipo naquela ocupação que aconteceu com a gente: aquele coronel gritou. Depois chegou aquele cara da boina vermelha, aquela polícia, gritou também. Pois então, a sociedade em que a gente vive é mais ou menos assim: nós deixamos de ser escravos, mas continuamos no chicote. É mais ou menos assim.

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