Não é invasão, é uma questão de necessidade

Por Zé Ripardo

Junho de 2023

A luta por terra em Massapê (CE) é acirrada! Sempre se tem a presença policial e do sistema judiciário contra nós. A nossa causa é justa, não é uma invasão, é uma questão de necessidade. E a necessidade obriga a tomamos decisões nem sempre adequadas para sobreviver.

Em 1996, eu fiquei sem casa. Fiquei desesperado, pensando como iria morar de aluguel sem estar trabalhando, sem dinheiro, sem nada. Era apenas eu e mais três filhos pequenos.

Depois de passar de casa em casa de parentes, Deus me inspirou a ocupar um terreno na frente da casa de um dos meus filhos, e construir um rancho, porque naquela situação em que eu estava, levando meus filhos pequenos de um lado para o outro, não poderia continuar.

Sabia que não seria fácil, pois a terra tinha dono, mas não desisti. Às 5h, peguei a foice, a enxada e um picarete, comecei a limpar o espaço tomado pelo mato. Não aconteceu nada, nenhuma reclamação ou aparição de alguém. Mas, no segundo dia, continuei a limpar e a polícia apareceu atrás de mim, informando que o delegado estava me chamando. Tentaram me levar na viatura, mas relutei e fui de bicicleta, afinal, não era bandido para ir na viatura.

Fui informado de que não podia levantar uma casa naquele terreno, pois não tinha documento de propriedade. Expliquei a urgência de ter um teto para mim e meus filhos, mas recebi apenas o conselho de não mexer mais lá. Saí da delegacia, e não fui para o terreno. Porém, às 4h da manhã do dia seguinte, lá estava eu, continuando a limpar. Às 6h, a polícia apareceu novamente e eu disse a eles que era uma questão de necessidade.

Fui algumas vezes conversar com o delegado sobre o assunto, mas a partir daquele momento não era mais com ele que eu iria falar, mas com a promotoria. A situação foi encaminhada para a justiça, e fui conversar com o promotor, somente eu e Deus. Me questionaram sobre o que eu estava fazendo lá, expliquei toda a situação em que me encontrava, mas mais uma vez não ligaram para isso, apenas para o documento do terreno. Eu retruquei, afirmando que a terra era do governo, que a construção estava em cima da “banqueta da linha”, no meio de duas terras.

Retrato a carvão (IA) de Zé Ripardo na Ocupação Nestor Makhno em Massapê (CE), 2023.

Mais dois companheiros se juntaram a mim na mesma situação, e voltamos a construir as casas. Quando estava fazendo a sustentação do teto, olhei para trás e vi a polícia de uma ponta a outra no horizonte. O dono do terreno convocou a polícia para nos enfrentar, mas não recuamos.

Hoje em dia, ainda moro no local. Cresceu e mais pessoas chegaram. Alguns construíram e venderam as casas, outros alugaram. Isso me entristece, porque, depois de tanto sacrifício, tanta luta, alguém vender a casa para uma pessoa que não participou do movimento pela terra e ainda vendê-la a um preço caro para o nosso povo pobre, não era algo bom.

Estamos prestando mais atenção, com a ajuda da diocese, à condição de quem está entrando agora no espaço. Quem realmente está conosco, pois a luta é contínua, precisamos ter casas para a necessidade do nosso povo, não para vender ou alugar, afinal, isso enfraquece a luta daqueles que continuam lutando.


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