Ação de 14 de julho destruiu material de construção comprado pelas famílias e veio acompanhada de ameaças de retirada de crianças. Enquanto isso, o empresariado violenta por fora da lei. E a própria Prefeitura é a autora do pedido de reintegração de posse.
Na terça-feira, 14 de julho, a Ocupação Nossa Conquista, no Loteamento Jurema I, bairro Araturi, em Caucaia, foi surpreendida por mais uma ação violenta. Os moradores foram surpreendidos por uma operação da prefeitura. Não houve informação sobre o processo, somente uma citação no Diário da Justiça para constar. Quando as famílias chegaram, o que encontraram foi a destruição dos tijolos que haviam comprado, com muito sacrifício, para levantar suas casas.

Ao tentarem negociar, moradores relatam que foram ameaçados por agentes da própria Prefeitura: disseram que as crianças poderiam ser retiradas pelo Conselho Tutelar por estarem morando na ocupação. Um ato cruel de intimidação.
A justificativa apresentada pelos agentes foi de “limpeza ambiental”, por a ocupação estar próxima a uma área verde. É preciso dizer com todas as letras: as famílias construíram seus barracos respeitando o distanciamento do rio, na faixa de Área de Preservação Permanente, e sem derrubar as carnaúbas. Quem chegou com máquina foi o poder público derrubando, inclusive, árvores. A preocupação ambiental do município aparece quando é hora de derrubar barraco, mas não quando os empresários implantam um Data Center que consumirá até 144 mil litros de água por dia.

Na ação de 14 de julho de 2026 estiveram no local equipes da Guarda Municipal de Caucaia, Autarquia Municial de Transito da Caucaia, 1ª Companhia (Controle de Distúrbios Civis – CDC) do Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) da Polícia Militar do Estado do Ceará (PMCE) e da Secretaria de Planejamento Urbano e Ambiental de Caucaia (SEPLAM), que demoliram casas de alvenaria.


Quem são as famílias
A Ocupação Nossa Conquista começou em dezembro de 2024. Nasceu da necessidade. São moradores do próprio Araturi que não conseguem mais pagar os valores abusivos cobrados na região e sonham com a casa própria. Ao longo do conflito, cerca de 30 famílias estiveram envolvidas na ocupação.
É uma comunidade organizada. Realizam assembleias para decidir suas ações, mobilizam mutirões e demais trabalhos coletivos. Em 2025 formalizam a Associação de Moradores Nossa Conquista que promove eventos comunitários como dia das crianças; capacitações como cursos de cabeleireiro e de negócios autônomos, pensados a partir das necessidades concretas de quem vive ali. Em Julho de 2026 a comunidade passa a se articular junto à Organização Popular Terra Liberta, integrando sua resistência a uma rede de comunidades trabalhadoras com autonomia.
A ofensiva dos empresários
O ataque não vem apenas de farda e de caminhão da Prefeitura. Desde junho de 2025, homens encapuzados passaram a comparecer ao local promovendo intimidações. Pessoas ligadas ao mercado imobiliário, identificadas pelos moradores como corretores de imóveis e advogados, começaram a atuar na área promovendo demolições por conta própria.
Ou seja: enquanto a ação de reintegração corre na Justiça, particulares fazem despejo por fora da lei. Em novembro de 2025, construções existentes no local foram derrubadas. As casas erguidas pelos ocupantes são demolidas de forma reiterada, promovendo traumas em famílias que muitas vezes são compostas por mães atípicas.
Há um mecanismo. Depois de cada rodada de demolição e ameaça, produzem-se relatórios que descrevem a área como vazia ou praticamente abandonada. Mas o esvaziamento é a consequência imediata da violência que ali se pratica. Primeiro se expulsa no medo, depois se certifica que não há ninguém. O vazio é fabricado e depois usado como argumento.
Uma das ocupantes chegou a procurar o Ministério Público para comunicar que homens encapuzados ameaçavam os moradores. Uma senhora que filmava a ação da PM-CE teve um dedo quebrado. Ocupantes também foram abordados por indivíduos que se apresentaram como policiais à paisana e agrediram moradores.

A Prefeitura é a autora
Convém não perder isso de vista. No Processo que tramita na 1ª Vara Cível da Comarca de Caucaia, o autor do pedido de reintegração de posse é o Município de Caucaia, governado pelo prefeito Naumi Amorim (PSD).
Em 30 de abril de 2026, foi expedido mandado de reintegração de posse provisória, com autorização expressa para uso de força policial e arrombamento. Em 27 de junho de 2026, o oficial de justiça certificou que se dirigiu ao endereço e não o localizou, e que, sem ser procurado pela parte autora, deixou de proceder à reintegração em favor do Município.
Menos de três semanas depois, no dia 14 de julho, a demolição aconteceu assim mesmo, sem que a ordem judicial tivesse sido cumprida nos termos em que foi expedida. Segundo relatam os moradores, os agentes justificaram a ação como “limpeza ambiental”. Até o momento, não há informação conclusiva sobre a existência de qualquer procedimento formal instaurado pelo Município de Caucaia.
O município é parte interessada em retirar as famílias. Porém, em nenhum momento apresentou uma alternativa habitacional para essas famílias. Poderia ter proposto. É sua responsabilidade.
A saída existe e é viável
As famílias da Nossa Conquista não pedem esmola nem o impossível. A reivindicação é clara: que a Prefeitura de Caucaia conceda lotes urbanizados para autoconstrução de 30 moradias em regime de mutirão.
É uma solução barata, testada e inteiramente ao alcance do município. As famílias entram com o trabalho, como já vêm fazendo, do próprio bolso, comprando tijolo a tijolo. O poder público entra com a terra e a infraestrutura. Custa muito menos do que operação de demolição com Polícia Militar, muito menos do que anos de processo judicial, e resolve de verdade o problema que a demolição apenas empurra para o próximo terreno.
No dia 21 de julho de 2026 uma comissão dos moradores, junto à coordenação da Org. Terra Liberta, tiveram um atendimento no Escritório Frei Tito de Alencar, ficou deliberado o encaminhamento de ofícios ao Núcleo de Habitação e Moradia (NUHAM) da Defensoria Pública do Estado do Ceará e ao NUAVV (Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência) do Ministério Público, para acompanhamento das medidas adotadas e apuração dos fatos narrados pelos ocupantes.
Enquanto isso, a comunidade segue reconstruindo o seu sonho de viver com moradia dígna. Tijolo por tijolo, lona por lona.

Como ajudar a Ocupação Nossa Conquista
Doação de alimentos, roupas e materiais podem ser articulada pelo whatsapp da associação de moradores 85 9 99065868.
Contribuições financeiras podem ser feitas à conta da Associação de Moradores Nossa Conquista. Chave-pix: 62.855.209/0001-94 (CNPJ).
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