Vicente, irmão do mártire Benedito Tonho, concedeu um relato sobre a luta na comunidade de queimadas (Coreaú-CE) durante a romaria em memória do martírio em 5 de agosto de 2023
Quero fazer um relato com relação à luta pela terra da comunidade de Queimadas. Um bocado de tempo atrás, a gente morando nas Queimadas, a gente achou-se atento, a gente não conhecia, a gente não tinha sabedoria, que não ter terra para morar era porque Deus queria, a gente ser pobre é porque Deus queria, não ter nada é porque Deus queria. Pôr a gente aceitar todo tipo de opressão pelo latifúndio.
Aí chegou um determinado tempo que a gente não aceitou mais. Organizamos uma comunidade, a comunidade a qual tinha aproximadamente umas 10 a 15 famílias, e aos domingos tinha a celebração, e às quartas-feiras a gente se reunia para debater os problemas da comunidade: era falar sobre terra, que a gente não tinha terra para plantar, para colher; falar sobre os opressores que nos oprimiam, se a gente fosse plantar na terra do latifundiário, ele cobrava renda de 3 pra 1, e tinha aquele negócio todo.
Ou seja, a gente falava da terra, falava da saúde, falava da educação, de tudo a gente falava. O que a comunidade necessitava, a gente debatia na reunião.
Até que a gente teve o objetivo de partir para a luta. Encontramos uma terra de aproximadamente 176 hectares, se não me engano. É uma terra devoluta, uma terra que pertence ao Estado, e a gente se apossou dessa terra. Começamos a brocar, a plantar, a trabalhar. Logo apareceu um grileiro, um latifundiário, e ele grilava as terras. Fazia documentos falsos, tudo ele inventava. Ele chamou a gente para a justiça, e fomos. O doutor Viveiro Clodovel Arruda, que foi o advogado na época, meu irmão Benedito Tonho foi atrás dele.
Era um advogado muito novo, mas muito competente. Começou a advogar na nossa defesa, na defesa dos trabalhadores. Com uns dois anos aproximadamente, o juiz deu a causa ganha para nós como pulseiro. Na verdade, já estávamos sempre pulseiros da área. Quando deu a causa ganha para a gente, o latifundiário apelou para o tribunal de Fortaleza/CE.
Mesmo com a apelação, continuamos com a sentença do juiz. Lá no tribunal, com 10 anos, o juiz lá despachou, cumprindo com a mesma sentença dada pelo juiz anterior, do Coreaú, do nosso município. Assim, deu a causa ganho de novo, ganhamos de novo.
O latifundiário, insatisfeito, contratou um pistoleiro e mandou nos matar. Foi onde houve a morte do meu irmão Benedito Tonho. É como aqui, não foi diferente a história, aqui na Romaria, que está acontecendo hoje, a 7ª Romaria, em homenagem ao Mártire Benedito Tonho. E aqui tem muitos depoimentos, muitos parecidos com o ocorrido. Ele sempre dizia: quem luta corre o risco, mas que a pessoa não pode deixar de lutar por aquilo que é verdadeiro, pelos direitos. Lutar contra os opressores e defender a liberdade, defender os nossos direitos. Porque todos nós temos o direito à terra. Ainda mais lá, que lá a terra é devoluta, nós íamos passar. E o grileiro, na época, queria nos expulsar de lá. Ele nos levou para a Justiça, mas nós não o levamos. Nós ganhamos, tanto na Justiça comum quanto no Tribunal de Fortaleza.
Agora, tivemos muita ajuda das comunidades. Isso é uma experiência que a pessoa pode obter. As comunidades vizinhas nos ajudaram muito na época, porque a gente precisava de apoio. Tinha a Recreio, Serra verde, tinha… tinha aqui a Piranduba, que era a comunidade, a Coreaú. Foi juntado, na época, um monte de comunidades.
E aí todos nos deram apoio. Além do advogado. Aí teve Sobral, teve a Caritas Diocesana, que nos deu apoio. E ajudaram a gente com programas sociais, para que pudesse se manter na posse. Porque, nessa época, a luta pela reforma agrária, onde o próprio Benedito Tonho dizia, que não adiantava temos só a terra e não ter os programas sociais pelo Governo.
O Governo teria que regularizar através do INCRA, né? Essa época tinha o nome de ITESP. Hoje a gente pensa que é IDACE. Que é o órgão responsável pela reforma agrária das terras improdutivas. Ou seja, terra devoluta. A terra devoluta, para quem não sabe, são as sobras de terra. Medida a meio légua. Assim, a que sobrou, a gente tinha a posse.
Então o órgão responsável era o ITESP, na época. E depois mudou para o IDACE. E o outro órgão, o INCRA, que é o responsável pelas terras agrárias que estão improdutivas, que foi o que acabei de ouvir ali. Quer dizer, a terra que está improdutiva, é da responsabilidade do INCRA, para que ele possa regularizar, desapropriar, pagar ao proprietário, e dividir para os trabalhadores.
Então nessa época, a experiência que a gente teve, foi que o ITESP na época, dizia que era da responsabilidade do INCRA, mas isso a responsabilidade era deles. Ai o INCRA dizia que era da responsabilidade do ITESP. E ficou nisso aí, levava para um, levava para o outro. E aí a regulamentação dos títulos da terra nunca resolveram, não.
Até hoje continua desse jeito. E o que eu o quero dizer, é que talvez se tivesse regularizado logo antes, não teria acontecido. Mas eles não resolviam nada, ficavam botando para um outro, para o outro, e não resolveu. Até que o latifundiário contratou… e até que o juiz despachou também. E o proprietário, não porque ele não era proprietário de nada, pois ele falsificou um documento no cartório, alegando para o juiz que era o legítimo proprietário. Quando o juiz foi lá no cartório do Segundo Ofício, descobriu que o documento era falso. Ele não tinha documento, não havia documento de origem.
Foi isso, mais ou menos que aconteceu. Às vezes a gente depois pode lembrar de muito mais coisas, pois já está com 37 anos, tem muitas coisas que a gente esquece um pouco. Mas foi mais ou menos isso a história das Queimadas. Mas ainda hoje continua.
Mas o que eu posso dizer para quem está na luta: é que não esmoreça. Continue. Porque o nosso objetivo é de defender os nossos direitos. Acho que temos que defender os direitos da gente. Ninguém pode entregar o direito da gente para ninguém. Temos que correr atrás.
Nós precisamos da terra para morar, precisamos da terra para trabalhar, precisamos da terra para tudo. Às vezes, tem caras ignorantes que diz assim “eu não preciso de terra. A terra é quem me come”. É uma ignorância muito grande. Como é que nós vivemos sem a terra? Precisamos da terra para morar, para produzir, para obter água.
Tudo é sobre a terra. É onde está a história. É a terra e o homem. O homem e a terra têm que correr juntos. Terra, água e muitas coisas. Tudo depende da terra.
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