Finalizada em 9 de Novembro de 2025. Reproduzimos aqui as perguntas e respostas que avaliamos mais interessantes para esta publicação. A entrevista completa pode ser lida no livro impresso da editora em espanhol.
Pode apresentar a organização.
Em junho de 2020, em meio a uma pandemia, um conjunto de famílias da periferia de Fortaleza, Ceará, ocupou um terreno que estava há mais de 30 anos abandonado no bairro Mondubim. Assim, foi surgindo a Ocupação Carlos Marighella através da articulação destes moradores com sindicatos e organizações populares. Em setembro de 2020, um conjunto de militantes do Sindicato Geral Autônomo do Ceará (SIGA-CE) e da Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC) vieram para apoiar a ocupação. As duas organizações faziam parte da então Federação das Organizações Sindicalistas Revolucionárias do Brasil (FOB), que desde 2010 já vinha articulando organizações de base no Ceará para avançar a luta pelos direitos do povo em seus locais de estudo, trabalho e moradia.
As primeiras atividades que estes militantes realizaram na ocupação foi limpeza do terreno, construção de banheiros secos e ajuda na cozinha comunitária. No mesmo ano começaram a participar da coordenação da ocupação, junto a outras organizações, e assim construíram a resistência da comunidade contra dois despejos e a conquista da terra para as famílias em menos de um ano. Após a conquista da terra, uma parte destes militantes e ocupantes decidem construir uma organização popular para avançar na luta por terra para além da ocupação em que estavam. Assim, entre lonas e madeirites é fundada em agosto de 2021 a Terra Liberta: Uma organização popular que luta por Terra e Liberdade. Esta é nossa organização.
Quem viveu este momento vê um filme passar pela sua cabeça quando conta esta história. Existem tantos detalhes, mas algumas coisas são fundamentais. Parte dos fundadores tinham um vínculo importante com o campo, por isso não se buscava uma organização para fazer uma reforma urbana, mas que enxergasse a terra por debaixo do cimento. Isso é: compreender que a nossa luta não era por teto, mas por terra, assim como os outros trabalhadores que ocupavam fazendas. Isso faz sentido na Ocupação Carlos Marighella, pois ela era bastante cheia de natureza meio a selva de pedra. Outra coisa importante era que não queríamos uma organização autoritária. Mesmo sob a justa luta por terra, muitos trabalhadores sofrem debaixo das lonas o peso de ditas lideranças que são como pequenos patrões dentro da luta do povo. Como construir uma ocupação que fosse uma comunidade unida que todo mundo mandasse e todo mundo obedecesse? Eram algumas das perguntas que nos guiavam – e até hoje guiam. A violência contra as mulheres também era um triste problema em foco. E nisso construímos a importância do protagonismo das mulheres em espaços até hoje negados, como a da autodefesa nas vigílias em defesa das comunidades.
Pensamos que, quando algo lhe faz ficar entre a vida e a morte, ou você foge de vez, ou você se agarra. Vemos que isto marcou muito os fundadores da organização que permaneceram na luta. Ao mesmo tempo que uma felicidade muito verdadeira sempre nos atravessou o peito durante encontros que ficam na memória. São os combustíveis que fizeram a gente chegar neste ano de 2025 onde completamos em agosto 4 anos de organização.
Do início para o presente, conseguimos expandir nossa atuação tanto no meio urbano quanto no rural. A Ocupação Nestor Makhno, no município de Massapê, foi um marco no contexto do campo. Agora estamos ainda a colher os frutos de tanto esforço. Na cidade, temos avançado na resistência a despejos em comunidades já estabelecidas, abordando a questão da regularização fundiária. Em meio a isto temos momentos importantes de lutas contra a violência policial e em defesa dos povos do campo contra grandes empreendimentos energéticos. Tudo isto caminha na realização de 4 objetivos que definimos em 2023: (1) Construção de moradia digna; (2) Vida comunitária sem opressão; (3) Respeito aos territórios do povo; (4) Trabalho em comunhão com a natureza. Sob estes eixos é que nossa militância se organiza construindo núcleos de base nas comunidades da classe trabalhadora. Guiando-se pelos princípios da Autonomia, Ação Direta, Apoio Mútuo e Democracia Radical.
Por que “Terra Liberta”? O que você quer expressar com essas duas ideias fortes?
O nome é algo muito importante para mística de uma organização. Em 2021, este nome surgiu em meio a uma chuva de ideias. O nome escolhido conseguiu trazer a ideia de terra e liberdade de uma maneira bastante única. Em geral não encontramos referência a algum grupo que tenha se chamado por este nome exatamente. Existe um certo duplo sentido no nome. É a terra que está liberta ou é a terra que liberta? Podemos apresentar isso nas duas frases: Queremos uma terra liberta. Só a terra liberta.
A escolha dessas duas ideias tem relação com o que já foi exemplificado antes. Era uma preocupação central evitar uma abordagem na luta pela terra que desconsiderasse o combate ao autoritarismo, a dominação. Então essas duas ideias se casaram muito bem.
Terra e Liberdade é uma palavra de ordem que sempre esteve no nosso repertório. E isso se dá pela referência tanto na organização dos trabalhadores espanhóis da CNT, que fundaram um jornal em 1888 com este nome, quanto com a revolução mexicana que em 1910 carregou esse lema através de Ricardo Flores Magon e Emiliano Zapata.
Quais são as particularidades das lutas sociais na cidade de Fortaleza e no estado do Ceará? Quais são os problemas sociais mais recorrentes no estado?
O Ceará é um dos últimos estados a ser formado no processo de colonização do Brasil. Entre 1680 e 1720, a interiorização da colonização (da costa para o sertão, através das ribeiras) provocou enormes conflitos com os povos originários, que construíram alianças extraordinárias, como a Confederação dos Cariris.
O sangue vermelho derramado regou os plantios de algodão no século seguinte, cuja valorização se intensificou com a Guerra de Secessão nos EUA. Esse valor, contudo, não era compartilhado pelos explorados da terra: africanos escravizados do povo Bantu, povos indígenas e demais trabalhadores que viviam em um sistema de servidão que gerava dívidas eternas.
Em 1863, foi emitido um relatório na Assembleia Provincial do Ceará que afirmava a “extinção” dos povos indígenas, negando ainda mais a terra que lhes havia sido roubada. Alguns anos depois, os jangadeiros1 realizaram uma série de greves nos portos de Fortaleza, somando-se decisivamente à conquista da abolição em 25 de março de 1884.
Como a liberdade sem terra é incompleta, o início do século XX foi marcado por intensas migrações de sertanejos em meio à seca e às cercas do latifúndio. Houve verdadeiros campos de concentração para essas populações, tanto na capital Fortaleza quanto no interior, com o objetivo de evitar as migrações.
Nessa capital que se desenvolvia violentamente, o sindicalismo revolucionário teve participação notável em greves de trabalhadores, como as da empresa de energia e transporte Ceará Tramway, Light and Power (1917 e 1919), e dos trabalhadores do porto.
No sertão, a seca que assolava os trabalhadores sem-terra tornou-se justificativa para o Estado investir em infraestrutura (açudes e barragens) que privilegiava os grandes proprietários. A partir da segunda metade do século, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) avançou na implementação de perímetros irrigados, o que provocou ainda mais expulsões de camponeses de suas terras. Um caso notável é o martírio de Zé Maria do Tomé, assassinado em 2010 por empresários ao defender sua comunidade em meio às remoções do DNOCS e ao despejo de agrotóxicos por aeronaves na região leste do Ceará (Vale do Jaguaribe).
Já no século XXI, há um avanço predatório dos empreendimentos energéticos eólicos e solares, principalmente na região litorânea do leste cearense, adentrando pelo Vale do Jaguaribe. Algo especialmente preocupante são os projetos de usinas eólicas no mar, que afetam diretamente a pesca artesanal; responsável por 70% do pescado cearense.
No sertão oeste, há avanço recente na implementação de mineração nuclear no município de Santa Quitéria, que, em tempos passados, já havia provocado casos de câncer entre trabalhadores que mineravam esse minério radioativo.
Relacionado ao câncer, a Lei Estadual n.º 16.820/2019, conhecida como Lei Zé Maria do Tomé, foi sancionada em janeiro de 2019 no Ceará, proibindo a pulverização aérea de agrotóxicos em todo o estado. Posteriormente, a Lei n.º 19.135/2024 alterou a anterior, liberando a pulverização de agrotóxicos por drones. Isso tem implicações gravíssimas para a saúde do povo do campo e para o uso de drones como armas químicas contra camponeses; como já ocorre no Maranhão em disputas por terra.
Como vocês definem os princípios que norteiam sua atividade militante e como os aplica em sua prática diária?
Há uma brincadeira que diz que, quando se quer dizer que algo é velho, afirma-se que “isso é mais velho do que ficar de cócoras”. Em muitos materiais da Terra Liberta podem ser encontradas referências à autonomia, solidariedade, apoio mútuo e ação direta. Tudo isso faz parte, mas pode ser melhor pronunciado através de uma frase: Comuns Confrontam em Rede Autônoma Solidária: CÓCORAS!
Foi em 2024, durante a construção de um curso para formação de organizadores, que formulamos esse conceito a partir do trabalho de um coletivo de Nova York chamado Unidade & Luta, que, por sua vez, se baseou nas formações da IWW, dos Panteras Negras e de Paulo Freire.
O princípio de que nossa organização deve trabalhar com os comuns é algo que nos ajuda a focar nos problemas imediatos que afligem grande parte da população. Marx dizia que as ideias da classe dominante são as ideias dominantes de uma sociedade. Assim, uma organização que pretende germinar o novo mundo junto aos trabalhadores precisa saber lidar com as contradições e problemas que a maioria das pessoas carrega em sua visão de mundo.
Muitas vezes, grupos que querem mudar o mundo acabam sendo tão seletivos que se reduzem a seitas de intelectuais que, frequentemente, reproduzem as mesmas práticas que criticam no povo, apenas de maneira mais sofisticada. Isso não significa deixar de combater o machismo, o racismo ou a falta de consciência de classe, mas compreender que a organização deve ser um espaço transformador, onde as pessoas se libertam em comunhão.
Isso implica reconhecer que o conjunto mais ativo de militantes dentro da organização não sabe de tudo e precisa, necessariamente, investigar e agir em conjunto para resolver os problemas coletivamente.
Das necessidades das pessoas comuns surge a questão sobre qual direção a organização deve seguir a partir desses problemas. A ordem geral do sistema em que vivemos é evitar o confronto do povo com a ordem, buscando sempre abordagens de conciliação. Por isso, muitas lideranças comunitárias conduzem suas comunidades a apoiar ou disputar prefeituras sem confrontar a classe política, desejando apenas ter espaço dentro dela.
Nessa direção, muitas comunidades permanecem com direitos básicos negados, mesmo após elegerem políticos oriundos de seus próprios territórios. Na direção oposta, o confronto aumenta o risco da luta, mas também eleva as chances de conquista. Com uma boa estratégia, é possível obter vitórias rápidas através do confronto, reduzindo os riscos. Para além das pautas imediatas, o confronto do povo contra políticos e patrões desenha quem queremos que exerça o poder na sociedade que queremos construir.
Tudo isso é bastante difícil em um sistema que nos molda para sermos como um saco cheio de bilas, todos separados e se chocando o tempo todo. Queremos outra lógica: a lógica das redes que pescam os peixes no fundo do mar. Agir em rede é estar articulado com muita gente, com diferentes saberes e necessidades.
Ter autonomia é evitar os ganchos que separam e rasgam os nós da rede. O gancho do Estado é um dos principais; quando não consegue controlar pela repressão, ele compra as organizações com cargos e dinheiro, criando verdadeiras armadilhas.
Para garantir autonomia em relação ao Estado, é fundamental construir uma infraestrutura de resistência que assegure os recursos necessários às demandas organizativas. O que molda toda essa rede autônoma é a solidariedade, a qual é a outra face do confronto. Enquanto nos entrincheiramos para defender o que é nosso, realizamos, ao mesmo tempo, um ato de solidariedade entre os explorados.
Em outras palavras, é sentir no peito o coração do outro. Isso faz lembrar quando organizamos, junto à família e aos amigos de Weslley Souza, jovem de 17 anos assassinado em 14 de fevereiro de 2021 pela polícia na Comunidade do Alto da Paz, ao lado da Ocupação Carlos Marighella. Percorrer as ruas misturando luto e luta, escrever o nome do jovem nos muros da avenida ao lado de outros jovens que jogavam bola com ele, escutar, antes de uma oração final, a irmã dizer que o coração dela foi lavado pelo protesto… Tudo isso é sentir o coração do povo. É solidariedade.
O que vocês reivindicam das figuras de Carlos Marighella e Nestor Makhno? Que outras referências teóricas e históricas fazem parte de sua caixa de ferramentas?
Carlos Marighella foi um guerrilheiro brasileiro que construiu a resistência armada contra a ditadura militar (1964-1985). Quando os militantes fundadores da Terra Liberta chegaram na ocupação em Fortaleza, ela já havia sido batizada por este nome por conta de outros militantes, principalmente vinculados ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), que já atuavam na ocupação e sugeriram o nome e os ocupantes aprovaram. Quando Marighella diz: “não tive tempo para ter medo”, essa frase se liga muito ao coração de quem passou por grandes enfrentamentos, como eram as ordens de despejo da ocupação. Há poemas dele, como “rondó da liberdade” que também alimentam a mística de quem dedica a vida à luta.
Nestor Makhno, por outro lado, nasceu onde hoje é a Ucrânia e participou do processo de libertação contra o império Russo na revolução de 1917, criando territórios independentes tanto do poder dos imperadores quanto dos bolcheviques russos. De tão distante, foi em uma roda de conversa em 2022, em preparação para a ocupação em Massapê (município interiorano do Ceará), que seu nome foi escolhido dentre outras figuras históricas da classe trabalhadora. A origem camponesa de Makhno e sua ousadia em desafiar dois grandes exércitos fez sentido para aquele grupo de trabalhadores que desafiavam os grandes proprietários de terra e os governos, municipal e estadual, pois há décadas que não tinha ocupações deste modo naquela região.
O Sindicalismo Revolucionário, em sentido amplo, é a grande teoria que orienta a organização desde sua fundação. Isso nos leva a questões importantes quando percebemos a Terra Liberta enquanto uma organização por local de moradia que necessita se complementar com organizações por local de trabalho para construir a autogestão dos trabalhadores em todo o mundo.
Faz parte de nossa caixa de ferramenta as referências históricas a importantes iniciativas brasileiras, como Quilombo dos Palmares, a já citada Confederação dos Cariris, Canudos, Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, Pau de Colher, etc. É bebendo destas águas que conseguiremos aprender com comunidades que ousaram disputar a autoridade do Estado Brasileiro.
Quão difundido é o problema de acesso à moradia nas áreas urbanas? Como funciona a Ocupação Carlos Marighella?
O déficit habitacional do Ceará, em 2022, chegou a cerca de 227 mil moradias, sendo que 86,6% estão em área urbana. A Região Metropolitana de Fortaleza concentra mais da metade desse total. Trata-se do resultado de um processo de urbanização excludente que preferiu imitar Paris na virada do século XIX para o XX, com um urbanismo voltado ao centro e à elite aristocrática. Para impedir que os flagelados da seca chegassem a essa “Paris tropical”, criaram-se os campos de concentração, verdadeiras “Auschwitz tropicais”. Onde hoje se encontra a região do Grande Pirambu, existiu um desses campos. Foi também nesse mesmo território que, na madrugada do dia 10 de setembro de 2024, Ana Mayane dos Reis Severino, de apenas 28 anos, foi assassinada com um tiro no peito por capangas que invadiram a Ocupação Deus é Amor. Esses capangas têm vínculo com o grupo Mota Machado que, assim como outros grupos empresariais, como a Diagonal da família Fiuza e a família Montenegro, são agentes que violentamente constroem a cidade. Foi na terra da família Montenegro, por exemplo, que se ergueu o Cidade Jardim, o maior conjunto habitacional da América Latina.
Os conjuntos habitacionais, na maioria impulsionados pela política pública federal do Minha Casa Minha Vida, são instrumentalizados pelo mercado imobiliário para lucrar com suas construções e se aproveitar da rede de infraestrutura criada do centro para a periferia. Isso valoriza os terrenos situados entre o centro e os conjuntos habitacionais, garantindo a expansão da cidade de maneira lucrativa. Outra problemática é que, em geral, esses conjuntos são construídos de maneira bastante precária, sem contemplar acesso adequado a transporte, saúde e educação para a superpopulação que surge concentrada em um novo território. Isso gera grandes problemas sociais. A criminalidade, entre eles, é a que mais chama atenção. Mas há expressões mais silenciosas também.
Em 2021, participamos da construção da Batalha da Mente, batalha de rap, no Conjunto Habitacional Cidade Jardim 2. Enquanto preparávamos o som para a noite, gritava uma pichação no alto de uma grande caixa d’água: “suicídio lento…”. A situação desses conjuntos é um desafio incontornável. Como fazer com que o Estado não transforme toda uma luta árdua de ocupações urbanas em projetos que secam a vida a conta-gotas?
Outra face do problema da moradia é a falta de regularização fundiária, que deixa as famílias vulneráveis a ataques de especuladores e gestores públicos. Atualmente, uma das maiores bases da organização é a região do entorno do Campus do Pici da Universidade Federal do Ceará. Esse campus, com 212 hectares, envolve diversos conflitos de terra com várias comunidades de trabalhadores. Entre elas, organizamos as comunidades dos Galpões, Hidráulica e Perimetral, que somam cerca de 100 famílias.
Em geral, essas famílias começaram a ocupar a região a partir de 1950, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a desativação da base militar que, em seguida, passou para o DNOCS e depois para a universidade. Muitos desses trabalhadores dedicaram sua mão de obra à construção da instituição, que, ao longo de mais de 70 anos, nunca regularizou a situação de posse informal estabelecida sob a ciência dos próprios gestores. Entre as gestões que foram omissas e as que atacaram as comunidades com ordens de despejo, foi a Terra Liberta que deu um salto na situação, envolvendo os moradores na conquista da suspensão da reintegração de posse e no início do processo de regularização fundiária em curso.
A Ocupação Carlos Marighella deixou de existir fisicamente com a conquista do projeto de habitação e o direito ao aluguel social, firmados em 2024. Para a construção das 85 moradias, que serão casas projetadas em parceria com Assessorias Técnicas Populares, como Quintau e Taramela, foi necessária a desocupação para a terraplanagem do terreno. Isso impõe outro desafio: unir famílias agora dispersas geograficamente. Ainda assim, a ocupação mantém uma postura combativa e, mesmo diante de todas as dificuldades, segue participando de diversas mobilizações.
Entre 2020 e 2024, houve um processo organizativo muito rico. Existia uma cozinha comunitária, gerida por escalas rotativas entre os ocupantes. Também ocorreram diversas atividades comunitárias, como festas das crianças, sessões de cinema, apresentações musicais e o Bazar do Sorriso, onde tudo se pagava apenas com alegria. Houve, com certeza, muita ousadia e estratégia para resistir às reintegrações de posse e às derrubadas ilegais.
Um aspecto em que sempre focamos foi a autodefesa, orientando sobre como as forças policiais poderiam violentar a comunidade, como os destacamentos militares se organizam e outras formas de proteção. Da criança ao idoso, todos estavam conscientes de que ali era uma guerra, mas uma guerra justa, que valia a vida. Pois como se pode dizer que há vida sem moradia digna?
Por quais motivos vocês se desligaram recentemente da FOB? Que critérios utilizam para se vincular a outras organizações em lutas concretas? Vocês têm relações diretas com outros coletivos atualmente?
O desligamento da FOB, em junho de 2025, não foi algo fácil. Algo que não queríamos reproduzir era a velha lógica de grupos dissidentes que saem de alguma articulação apontando o dedo e denunciando, como se tudo o que deu errado fosse culpa da outra organização, esquecendo que o grupo dissidente também foi, em algum momento, parte daquilo que agora critica. “Antes de criticar a escuridão, acenda uma vela” é um provérbio comum para esse tipo de situação.
Buscamos ser propositivos no que queremos construir, e isso deve ser o melhor caminho. Divisões como essa a história há de dar seu contorno com o tempo.
Porém, é importante destacar que não foi um desligamento apenas da Terra Liberta, mas também do Sindicato Geral Autônomo da Educação do Ceará (SIGAE-CE). Essas duas organizações buscam, em conjunto, construir uma proposta inédita de reconstrução do sindicalismo revolucionário no Brasil.
O debate está bastante vivo e é impulsionado pela coordenação interina que articula os dois grupos. Algumas perguntas guiam esse processo: como construir uma grande federação que articule as lutas baseada nos dois eixos de local de trabalho e local de moradia? No local de trabalho, é preciso conduzir uma abordagem que antecipe ou prefigure a autogestão dos ramos produtivos que compõem a sociedade atual. Por isso, abordagens sindicais que separam trabalhadores por ofício não são o nosso foco.
A abordagem por ramos produtivos (industrial) é a mais consolidada na estratégia sindicalista revolucionária, tomando como exemplo a IWW e a CNT. Por essa razão, o SIGAE-CE organiza todos os trabalhadores da educação, incluindo estudantes. Mas isso, por si só, é insuficiente para a construção do novo mundo na casca do velho. É preciso organizar as indústrias de transportes, telecomunicações, energia, construção civil, têxtil, alimentícia e tantas outras.
A ideia é ampliar massivamente a organização da classe trabalhadora a partir desses dois aspectos: o trabalho e a comunidade. Há momentos em que essas dimensões se misturam, e isso é muito bom. O que será essa grande união entre a Terra Liberta, o SIGAE-CE e outras organizações na reconstrução do sindicalismo revolucionário no Brasil (ou no mundo), a história ainda está por escrever.
Hoje, buscamos contato com organizações que não tenham um enfoque excessivamente ideológico, mas que possuam uma perspectiva prática diante dos problemas relacionados a pão, terra e trabalho. No Ceará, realizamos diversas atividades em conjunto com o SRM-Fort/CONFETRAF (Sindicato dos Agricultores e Agricultoras Familiares da Região Metropolitana de Fortaleza/Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar do Brasil), a OPA (Organização Popular – Construindo o Poder Popular), a Arpolu (Articulação Povos de Luta), entre outros.
Fora do Ceará, mantemos contato com militantes da Teia dos Povos (Bahia), Invisíveis (Rio de Janeiro), Tem Base? (Goiás), Treta no Trampo (São Paulo), Movimento Passe Livre de São José dos Campos (São Paulo), entre vários outros.
Fora do Brasil, já tivemos contato com militantes da Organisierte Autonomie Zürich (Autonomia Organizada de Zurique), da IWW (Estados Unidos), CNT (Espanha), FORA (Argentina) e muitos outros. É difícil listar todos, sempre correndo o risco de esquecer alguém querido, mas este é um panorama geral dos contatos que temos estabelecido nos últimos anos.
Assine o informativo da Terra Liberta por email!
Relatos de conflitos, experiências bem sucedidas e análises da conjuntura que importa para quem se importa com a luta pela terra.